18/05/13

'Felicidade Clandestina', de Clarice Lispector


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. 

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia” e “saudade”. 

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. 

Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. 

Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico.No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo. 

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. 

Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! 

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."

Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo  comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

12/05/13

Pequenos desejos #1

Entre a grama alta e descuidada, encontro um tímido dente-de-leão. Pego-o para mim e deixo em troca um de seus penachos no local de onde o tirei. Faço um desejo. Assopro os pelinhos brancos restantes ao vento, na esperança de que meu devaneios tornem-se reais.

  • Abraçar um leão, tigre, onça ou leopardo.
  • Morar em uma casa onde caiba um pequeno jardim, uma horta, um pomar de bonsais, árvores altas, um balanço pendendo do galho mais forte, um orquidário e uma biblioteca com passagem secreta.
  • Conhecer a 'Europa celta' - República da Irlanda, Reino Unido, França (norte) e Espanha (norte).
  • Escrever um livro de neurociências.
  • Dar aulas em universidades.
  • Adquirir os seguintes objetos preciosos, entre os já listados no Listography:

07/05/13

TFGS day: maio


Eis então mais um TFGS day, para alegrar o dia, o mês, o blog e a própria comunidade. Março trouxe músicas, abril recheou o dia com livros e maio resolveu ser crítico de cinema e trazer filmes fantásticos para todo mundo assistir antes de morrer.

TFGS (The Fairy Garden Society) é um grupo que tem por objetivo reunir pessoas cujos interesses se remetem ao fantástico, ao mágico, às coisas simples e bonitas. Foi, portanto, criada uma comunidade secreta no LiveJournal, onde são compartilhadas inspirações, conhecimentos, músicas, filmes, livros e quaisquer outras coisas que cada participante se sinta à vontade para publicar. O projeto foi idealizado pela Naty e, com a ajuda da Pri, colocou-o no ar no dia 7 de janeiro de 2013. Desse modo, o dia 7 de cada mês foi escolhido para que cada faerie do grupo poste algo relacionado com o que discutimos em nosso jardim.

Os filmes, cujos principais temas são fantasia, magia e mitologia, foram selecionados de acordo com meus gostos pessoais e os gostos das queridas faeries. Assim sendo, creio que cada um deles represente bem a comunidade, nossos sonhos, preferências, conhecimentos, desejos, pequenos prazeres... 

{'Stardust - O Mistério da Estrela'}

{'O Segredo do Vale da Lua'}

{'Ponte para Terabítia'}

{'O Senhor dos Anéis' (saga)}

{'O Hobbit'}

{'Harry Potter' (saga)}

{'As Crônicas de Nárnia' (saga)}

{'A Bússola de Ouro'}
    

{'As Crônicas de Spiderwick'}

{'Oz: Mágico e Poderoso'}

{'O Labirinto do Fauno'}

{'História sem Fim'}

{'Onde Vivem os Monstros'}

{'O Encanto das Fadas'}

{'Vivendo na Eternidade'}


{'A Princesa Prometida'}

{'Ondine'}

{'A Dama na Água'}

{'Tristão e Isolda'}

{'As Brumas de Avalon'}

{'Rei Arthur'}

{'Thor'}

Ficou enorme, eu sei. E ainda assim foi difícil selecionar apenas alguns, mas creio que passei a mensagem que eu planejava. Confiram ainda o post da faerie Nary!!

06/05/13

6 on 6: maio

A partir deste mês participarei do 6 on 6, um projeto cujo objetivo é reunir 6 blogueiras que possam publicar 6 fotografias no dia 6 de cada mês. Eu ia começar só em junho, já que decidimos ontem quem participaria da corrente, mas, como queria começar logo, tirei as fotos na correria. Prometo me esforçar mais em junho!


1. Meu pote de 'fairy dust' (ok, por enquanto só há glitter dentro, mas ainda farei a misturinha com as flores e ervas) e meu móbile de estrelas douradas no fundo.
2. Meu móbile de estrelas douradas e minha mini-roseira.
3. O céu de hoje.
4. Minhas edições de 'Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho', a chave do meu quarto e um coelho de papel laminado dourado.
5. Os livros comprados em março e abril: a) box da série 'As Brumas de Avalon', da Marion Zimmer Bradley | b) 'A expressão das emoções no homem e nos animais', do Charles Darwin | c) 'Contos de Fadas', de Perrault, Grimm, Andersen e outros |  d) 'Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho', do Lewis Carroll | e) 'Alice in Wonderland & Through the Looking-Glass', do Lewis Carroll.
6. O livro 3 da série 'As Crônicas de Gelo e Fogo', do George R. R. Martin, que tenho tentado chegar ao menos na metade, mas o excesso de afazeres não me permite.

Espero que tenham gostado! Confiram também o 6 on 6 da Renata, Vivi, Ana, Jéssica e Alessandra (talvez algumas não participem neste mês, mas confiram os blogs, de toda forma).

30/04/13

Resumo: abril de 2013

{'Adeus, abril! Bem-vindo, maio!' em gaélico; minha mini-roseira no centro}

Abril foi um mês agitado. Muitas provas e seminários na faculdade, esforços triplicados no campo 'concursos públicos', produtividade. Mal descansei. Se não fosse pelo feriado prolongado na faculdade (de 27/4 a 30/4; e o feriado é somente no dia 1/5), ai de mim e da minha saúde mental. Neste mês, eu...

  • Publiquei, no blog, 7 postagens (sem contar com esta).
  • Completei 2 anos e 4 meses de namoro com o Rafa.
  • Comecei a cultivar lavandas, alisso e uma mini-roseira (tenho cuidado delas como se fossem bebês).
  • Continuei com a meta de não tomar refrigerante.
  • Continuei com a meta de não comer carne nas segundas-feiras (o próximo passo será ficar sem comer carne durante 1 mês, para eu ir me acostumando aos poucos).
  • Fui ver, pela primeira vez, o ensaio da nova banda do meu amor.
  • Comecei a ler o 3º livro da série 'As Crônicas de Gelo e de Fogo' (mas parei a leitura pelo excesso de atividades outras).
  • Li 'O Inverno das Fadas' e 'O Sonho de Uma Noite de Verão'.
  • Assisti não lembro quantos filmes, mas creio que foi por volta de 4 ou 5.
  • Estudei muito para a pilha de provas que precisei fazer.

Com certeza fiz mais milhões de coisas, mas não me lembro agora da maioria. Maio será mais pesado ainda, por conta das provas de concurso que farei durante o mês, além das atividades da faculdade. Que venha maio e me traga não somente pesos para carregar, mas alegrias.

"Suavemente Maio se insinua 
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu

Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel

Raia a aurora tão tímida e tão frágil
Que através do seu corpo transparente
Dir-se-ia poder-se ver o rosto

Carregado de inveja e de presságio
Dos irmãos Junho e Julho, friamente
Preparando as catástrofes de Agosto..."

{Soneto de Maio - Vinicius de Moraes}